domingo, 13 de março de 2011

Onde estão? Não estão... nem existem!

Não sei se alguma vezpoderei levar os meus filhos, e os filhos dos meus filhos, aos recantos e esquinas da minha cidade,
dando-lhes a respiraro horizonte que cheira e sabe a infinito.
Sem palavras explicaria tudo. Explicaria porque, nas madrugadas embevecidas pelo silêncio da pequenez respiro o choro de uma dor crónica.
Um dia, com ou sem o pai, com ou sem o avô, eles acabarão por conhecera minha (e deles) terra.
E nessa altura, mesmo sem saberemo sítio exacto onde deixei o cordão umbilical,
vão respirar o silêncio, beber o infinito e dormir embalados pela certeza de que o pai tinha razão
quando chorava de saudade.
Terão, nessa altura, uma lágrima no canto do olho.
Uma lágrima que ao cair na terra quente de Angola
fará nascer uma flor.
Uma flor sem nome,
uma daqueles flores que só alguns vêem,
que só alguns sentem.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Monangambé do MPLA

Aquela roça grande
continua a não ter chuva
é o suor de outros rostos
que rega as plantações;

Aquela roça grande
ainda tem café maduro
e aquele vermelho-cereja
são gotas de outro sangue
feitas seiva.

O café vai ser torrado,
pisado, torturado,
continua a ser negro,
negro da cor do contratado.

Negro da cor do contratado!

Perguntem às aves que já não cantam,
aos regatos de alegre serpentear
e ao vento forte do sertão:
Quem se levanta cedo?
Quem vai à tonga?
Quem traz pela estrada longa
a tipóia ou o cacho de dendém?

Quem capina e em paga recebe desdém
fuba podre, peixe podre,
panos ruins, cinquenta kwanzas
"porrada se refilares"?

Quem?
Quem faz o milho crescer
e os laranjais florescer?

- Quem?
Quem dá dinheiro para o patrão comprar
máquinas, carros, senhoras
e cabeças de outros pretos
para os motores?

Quem faz o MPLA prosperar,
ter barriga grande
- ter dinheiro?

- Quem?

E as aves que cantam,
os regatos de alegre serpentear
e o vento forte do sertão
responderão:

- "Monangambééé..."

Ah! Deixem-me ao menos subir às palmeiras
Deixem-me beber maruvo
e esquecer diluído
nas minhas bebedeiras.

Nota: Poema original de António Jacinto. Monangambé (O contratado) eram angolanos negros contratados para trabalhar nas roças dos brancos, na era colonial. Hoje são angolanos negros contratados para trabalhar nas roças dos negros donos do poder.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Só alguns sentem e poucos compreendem

Tenho, todos os dias, uma lágrima no canto do olho. Essa lágrima perde-se no deserto português. Se fosse na terra quente de Angola faria nascer uma flor. Uma flor sem nome, uma daqueles flores que só alguns vêem, que só alguns sentem.

Escravidão com pirão na barriga

Embora,
por defeito de fabrico,
continue a pensar
(enquanto me deixam)
que só é derrotado
quem deixa de lutar,
descobri que para lutar
é preciso estar vivo.
Não tenho conseguido
dobrar as esquinas da vida
por não querer entrar
na vida pelas esquinas.
Não tenho conseguido
aprender a viver sem comer.
Além disso,
ao que parece,
o meu silêncio
poderá ajudar
a pôr comida no prato.
Estou a ser derrotado
pela barriga.
Entre a liberdade
de barriga vazia
e a escravidão
com pirão na barriga
a escolha é simples.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Bairro Meu

Onde não nasci
Mas cresci
Onde inspiro-me
E trago a melodia poética
Que percorre
O teu ser

De muitas memórias
Onde pela primeira paisagem
Apaixonei-me
Onde a primeira boca
Beijei
Onde a primeira pele macia
Toquei

De lembranças
Que nunca se apagam
Da memória
Dos amigos que tive
E já não mais tenho

Testemunha
Dos doces
E amargos momentos

Serei sempre grato a ti
Levarte-ei comigo
Onde quer que eu vá…

Autor: Sandro Feijó (Poeta Universal )