quinta-feira, 5 de junho de 2008

Vicuza Angola sonho

A criança negra recusa
Pétalas celestes de amanhã
Numa terra hoje queimada,
É o sentimento de Vicuza
No pólen da acácia clarivã
Na morte solenemente alada.

Huambo, Huila, Benguela,
Mapa acéfalo de recortes,
Sonho de pitangas agrestes;
Amorfismo desta minha cela,
Gradeamento de tantas mortes
Sem beijos, cruz ou vestes.

Tulemba, espírito reinante,
Irmão ganguela do passado,
Passado mortífero que assola;
Jamais mulher negra amante
Sentirás o espírito bom e amado
Do avoengo Ginga ou Txissola.

Quimera de Upuango
Venceu o kissange do Andulo,
Na negridão da noite Luena;
Nosso rio Cubango
Vai vermelho, vermelho nulo
Nulo com esta gangrena.

terça-feira, 3 de junho de 2008

«Morte na Picada» - Ler e recordar Angola

No próximo Sábado, dia 7, entre as 18:30 e as 19:30, Henrique Antunes Ferreira estará na Feira do Livro de Lisboa para uma sessão de autógrafos e conversa. Porque vale a pena, visite o pavilhão das pequenas editoras (do lado direito de quem sobe, quase no topo da Feira, pouco acima do Pavilhão Carlos Lopes).

Meu velho


São velhos os teus olhos,
Carcomidos os teus sentidos,
Triste o teu sorriso;
A vida foram abrolhos
Que deixaram espinhos perdidos
No ventre do teu juízo

Quando ris não sei se choras,
Quando choras não sei se lamentas,
Quando lamentas não sei se pagas;
Sei apenas que moras
Nesse córrego de tormentas,
Crivado de ódios e chagas.

Chamaram à tua sepultura
O reproduzir e viver,
Sonhando com alguém;
Não te disseram que essa tortura
É o ventre do morrer,
O sangue de matar alguém.

Nunca te disseram, meu velho,
Que quem não vive para servir
Não serve para viver;
Por isso estás nesse quelho
Olhando o sol que vai cair
E a noite que vai sobreviver.

Serviste para viver
Mas não viveste para servir
Os irmãos da nossa terra inglória;
Por isso sentes que vais morrer
Amaldiçoado pelo tinir
Da campainha da história.

Dos fracos ela não fala,
Toda a sua textura é ávida
De dádivas de heroísmo;
Nada a cala
Quando se sente grávida
De traições e fanatismos.

Mataste irmãos de sangue,
Ludibriaste homossexuais
E tuas filhas foram prostitutas,
A tua vida é exangue
Sarcástico desejo de animais,
Podridão de uma vida de lutas.

Se pagasses quando lamentas,
Se chorasses quando ris,
E não risses nunca mais:
Então o perdão que amamentas
Ser-te-ia dado pelo supremo juiz
Deste mundo de animais.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Mensagem de uma anduva

Faz do teu coração
O poleiro para a anduva
Africana.
Ela traz uma mensagem
Que diz:
- Morrem crianças.
Já não existem poetas no mundo?

Quinta-feira na Feira do Livro do Porto

A convite da Papiro Editora estarei presente numa sessão de autógrafos na Feira do Livro do Porto, certame que decorre até ao dia 10 de Junho, no Palácio de Cristal, no Porto. O “Alto Hama” terá a sua vez no dia dedicado a “Falar África”, ou seja 5 de Junho, pelas 21 horas. Estarão igualmente presentes, Fernando Cunha Araújo: “Chocolate Não Amargo”; Isabel Pires de Carvalho: “Manteiga de Cacau”; Rodrigues Miguel: “Quissonde; Vera Ribeiro: “Pedra Dura”; Marta Santos: “Gita”; Liana Tinôco Ferreira: “Vivências”; João Carlos: “As hienas também choram” e José Alberto Silva: “Começar pelo Intervalo”.

domingo, 1 de junho de 2008

O teu (papa)gaio

Vinha longe, ainda muito distante
Quando te vi com ar muito tristonho
Contemplando absorvido o céu,
Separavam-nos o vento gritante
No regaço embalando um sonho
Que nos cobria com o seu véu.

Pensei que estavas numa oração
Pois estavas totalmente absorto
Olhando uma prece de esperança,
Pensei que pedisses talvez perdão
Ao Deus que te seria conforto
Por alguma irreverência de criança.

Fui-me aproximando lentamente
Como gatito matreiro e lento
Até espontaneamente de tocar,
A tua dor estava mesmo na semente
Dessas puras lágrimas de talento
Que do teu rosto estavam a brotar.

Mas a tua oração era diferente
Qual onda frenética e convulsa
Nascida de uma dor tão sincera,
Choravas triste e descrente
Numa nobre reacção de repulsa
Pela injustiça que te dera.

Foi então que para o horizonte olhei
Na procura de uma qualquer piedade
Que justificasse a tua dor de desmaio,
Olhei e com mágoa então reparei:
Lá em cima no fio de electricidade
Estava pendurado o teu (papa)
gaio.

Livro terra


Reviver sonhos que já lá vão
num livro talvez esquecido
e adormecido na alma em poeira,
não é, creio, fácil a oração
para um poeta dolente e perdido
num mundo sem eira nem beira.

Deixem-no lá estar sonhando
perdido nos feitos sem glória,
nas esperança fantasiosas,
reviver na ternura e orando
um amanhã talvez com vitórias
sem armas, apenas com rosas.

Fechado tinha aspecto triste,
sorrindo com ar vagabundo
requebrado com ar indiferente,
um dia perguntei-lhe: Não viste
essa coisa que se chama mundo
parar abrupto, de repente?

- Não ligues triste companheiro
a esse pormenor rudimentar,
que parece puramente casual,
se parou foi talvez por roteiro
ou, quem sabe, para descansar,
não foi com certeza por mal.

- Repara meu querido amigo
na porca vida que nos rodeia,
podre, louca e degradada;
toda a gente repara no inimigo
que em cada um de nós vagueia,
e não viram a terra parada.

- Portanto não é vital com certeza
esse facto que tanto te alertou
e até te fez pensar e repensar,
repara antes na eterna beleza
que com isso ela nos despertou:
vamos oleá-la para voltar a andar.