segunda-feira, 16 de junho de 2008

Duas frases que dizem tudo…

«As mães, desidratadas, não conseguem alimentar os filhos. As crianças são verdadeiras migalhas humanas, deitadas na poeira como se fossem nascidas de um mundo de terror.»

Apontamento retirado do livro "Sou Jornalista, você é árabe?" de Ana Paula Castro, cujo lançamento será em Lisboa, Livraria FNAC, ao Chiado, dia 3 de Julho, às 18,15 horas, com apresentação do Sheikh Munir (autor do Prefácio) e de Eugénio Almeida e Orlando Castro.

Pesadelo do sangue que corre

Entre metralhas o teu corpo caiu
Cheio de sangue naquele terreno,
A morte chegou e não partiu
O horizonte ficou apenas sereno.

Ao longe era vermelho o luar
Que a guerra de dor adensava,
Falei então do verbo amar
Mas entre todos ninguém ligava.

O sangue esse continuava a correr
Banhando o nossa pouca esperança.
Não, nunca conseguirei esquecer
A tua dor minha doce criança.

Até a pobre esperança me fugia
Vagueando nos caminhos da morte,
Agarrei a saudade e a tua poesia
E fugi para este pobre mas meu forte.

E o forte é um coração com vida
Que sabe perdoar mas não esquecer,
Para que a razão seja conseguida
Há que saber lembrar para viver.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Verdade, razão, justiça

A verdade nunca se esconde
Porque só ela é sagrada,
Se te perguntarem responde
Que só a justiça te agrada.

E pela verdade sempre lutarás
Até à última gota de esperança.
Acredita, irmão, então vencerás
Porque a razão nunca cansa.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Na tua e nossa cela

Na tua cela nojenta
A liamba era o teu amor,
Só assim se aguenta
A vida com menos dor.

A prisão castrou-te o canto
E esterilizou-te a poesia,
Tudo o que era encanto
Morreu naquele dia.

No dia em que lutaste
Contra essa odiosa guerra,
Foi esse o ideal que amaste
Foi o amor à tua terra.

Não morrerás nessa prisão
Que tanto te enluta,
Na razão da nossa razão
Venceremos mais essa luta.

terça-feira, 10 de junho de 2008

Vozes alares

Correm vozes alares
Nos córregos do ventre
Do vento,
Sem vozes alares
Do ventre.
Aberto aos córregos
Que do vento
Trazem vozes do ventre
Alar.

sábado, 7 de junho de 2008

Em honra dos retornados

A casa, o sonho, a realidade
Lá ficaram perdidos, lá no Norte,
No norte de cristais celestes,
Foi-se a vida, foi-se a herdade,
Veio o fogo, a tortura, a morte,
A morte de garras agrestes.

O bago vermelho e triste do café
É um cristal na noite em borrão,
Em borrão, em borrão do hilota,
Tudo são saudades do que foi fé
E da vida que não foi sequer oração,
Oração morta pela guerra que brota.

As dores com sangue foram escritas
Terminando no cais do sofrimento
Onde nem o pensamento era reflectido,
Agora nem no teu Deus acreditas,
Ele deu-te a morte a cada momento,
Momento sempre de dor vivido.

Viveram e lutaram encorajados
Numa fé sempre espalhada ao vento,
E numa história que já não resiste,
Hoje são chamados de retornados
Que deixaram a alma ao relento
Numa terra onde a honra não existe.

Nem os poetas vos querem cantar
Nesta onda de franco oportunismo
Que dejecta na vossa bandeira,
Mas a justiça há-de chegar
Então com um novo heroísmo,
O heroísmo da verdade derradeira
.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Angola de outros tempos (espero)

Filhos doentes
Sem braços
Chorando,
Mães descrentes
Sem passos
Orando

Ardiam sanzalas
Aioé, aioé
Senhor,
Corria nas valas
O sangue da fé
E a dor da dor

Filhos sem pais
Mães sem filhas,
Guerra,
Aves sem cais
Barcos sem quilhas
A terra.
A minha terra…