domingo, 14 de setembro de 2008

Um dia, talvez...

Um dia,
com ou sem o pai,
com ou sem o avô,
eles acabarão
por conhecer a minha
(e também deles)
terra.
E nessa altura,
mesmo sem saberem
o sítio exacto
onde deixei
o cordão umbilical,
vão respirar o silêncio,
beber o infinito
e dormir embalados
pela certeza
de que, afinal,
o pai, o avô,
tinha razão
quando chorava
de saudade.
Terão,
certamente nessa altura,
uma lágrima
no canto do olho.
Uma lágrima que ao cair
na terra quente
de Angola fará
nascer uma flor.
Uma flor sem nome,
uma daqueles flores
que só alguns vêem,
que só alguns sentem.

1 comentário:

Sal disse...

ANGOLA ("Um dia, com toda a certeza")

Esquece as facadas
De uma guerra animal,
Ó dores danadas
De sangue ainda a correr, afinal.

Ó Angola de sangue a correr,
Em ti todo o apego
De um dia te ver
Com paz e sossego

Em ti sempre acredito
Nesta vida de mistério,
Até mesmo que o meu partido
Seja o cemitério.

Não vou fugir para terras estranhas
Angola do meu nascer,
De tuas entranhas
Nasci também para viver.

Meu sangue é teu eternamente,
As ruas poderá banhar
Na fecundidade de tua mente,
Para tua paz ganhar.

Orlando Castro, in Algemas da Minha Traição (1975)