segunda-feira, 13 de outubro de 2008

ANGOLA ("Um dia, com toda a certeza")

Aqui em baixo, no poema “Um dia, talvez...” está publicado o seguinte “comentário”:

Esquece as facadas
De uma guerra animal,
Ó dores danadas
De sangue ainda a correr, afinal.
Ó Angola de sangue a correr,
Em ti todo o apego
De um dia te ver
Com paz e sossego
Em ti sempre acredito
Nesta vida de mistério,
Até mesmo que o meu partido
Seja o cemitério.
Não vou fugir para terras estranhas
Angola do meu nascer,
De tuas entranhas
Nasci também para viver.
Meu sangue é teu eternamente,
As ruas poderá banhar
Na fecundidade de tua mente,
Para tua paz ganhar.

Orlando Castro, in Algemas da Minha Traição (1975)

Vejam também: http://poucaletra.blogspot.com/2008/10/meu-tormento.html

(Obrigado Filhota. É isso aí! Obrigado por me ajudares a ser feliz)

sábado, 11 de outubro de 2008

É isso aí, filhota!

Um dia lá irás
respirar o silêncio,
beber o infinito,
e chorar a saudade.
Não te importes
com a lágrima
que inundará
a terra quente
de Angola.
Nesse dia,
entre o silêncio,
o infinito
e a saudade
nascerá uma flor.
Que flor?
Perguntarão alguns.
Não te preocupes
porque essa será
uma flor tão rara
que só tu verás,
que só tu sentirás.

sábado, 27 de setembro de 2008

Entre dias sem pão e pão sem dias

Entre as ruas
do Bairro de Benfica
da então Nova Lisboa
e a última etapa
de um sonho,
Aprendi que importantes
são todos aqueles
(e serão certamente alguns)
que nos estendem a mão
quando tropeçamos
numa pedra.
Mas também aprendi
que mais importantes
são todos aqueles
(e serão certamente poucos)
que tiram a pedra
antes de passarmos
e que dificilmente
saberemos quem são.
Aprendi que o possível
se faz todos os dias.
Infelizmente muitos de nós
(já para não falar
de muitos dos outros)
nada aprenderam.
Entre dias sem pão
e pão sem dias,
continuo a tentar ser
o que sou e não
o que tantos outros
querem que eu seja.

(Obrigado Eugénio Costa Almeida)

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Lá de longe

Lá de longe
onde um outro sol
castiga mais,
chegam novas
do vento
que não passa.
Falam-me de alguém
que morre ao olhar
o infinito da dor,
que chora ao ver
o horizonte escuro
dos nossos meninos.
Não vão para longe,
nem sequer vão.
Ficam. Apenas ficam
porque lá longe
há um outro sol
que castiga mais.

domingo, 14 de setembro de 2008

Um dia, talvez...

Um dia,
com ou sem o pai,
com ou sem o avô,
eles acabarão
por conhecer a minha
(e também deles)
terra.
E nessa altura,
mesmo sem saberem
o sítio exacto
onde deixei
o cordão umbilical,
vão respirar o silêncio,
beber o infinito
e dormir embalados
pela certeza
de que, afinal,
o pai, o avô,
tinha razão
quando chorava
de saudade.
Terão,
certamente nessa altura,
uma lágrima
no canto do olho.
Uma lágrima que ao cair
na terra quente
de Angola fará
nascer uma flor.
Uma flor sem nome,
uma daqueles flores
que só alguns vêem,
que só alguns sentem.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Obrigado meu velho, meu irmão, meu amigo

Importantes são aqueles
(e serão certamente alguns)
que me estendem a mão
quando tropeço
nas pedras da vida.
Mais importantes são aqueles
(e serão certamente poucos)
que tiram a pedra
antes de eu passar
e que dificilmente
saberei quem são.

(Homenagem a um velho – já vem das terras do fim do mundo – amigo que tem passado a vida a estender-me a mão e a tirar as pedras do meu caminho. De seu nome: Fernando Frade)

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Um dia teremos...

Onde andam os velhos amigos?
Uns morreram na guerra
outros morrem na paz.
Uns partem
outros “matam-me”
com acusações
que dão ao acessório
o papel de essencial.
Apetece-me desistir.
Está tudo virado do avesso.
Já não precisam de ser
os inimigos a atacar.
Os supostos amigos
encarregam-se disso.
E se assim é,
não adianta escrever
o que quer que seja.
Adiantará alguma coisa
ter já escrito que fulano
é para mim um herói
para ter de dizer
logo a seguir
que esse mesmo fulano
resolveu dar-me um tiro?
Mas não desisto
Porque um dia teremos...

(Homenagem ao meu Velho e querido amigo Emanuel Lopes)